Nsa Senhora da Assunção

 

O prenúncio da festa do cabeço era ali, naquele lugar de saudade, o luar a responder ao apelo da nossa juventude imprudente. Centenas de melões, de toda a variedade, vindos da Vilariça, amontoavam-se na calçada junto ao patim dos Padres. As casas em volta, já sem luz, persianas abertas, cercavam os jardins de rosas e açucenas. O cheiro inflamado das tílias, ondeava com o cheiro doce dos melões, numa melodia de odores de que nunca lhe conheci regressos. Os caminheiros, peregrinos dessa noite já tinham invadido a taverna do Gustavo, de realejo alvoroçado, cantando e dançando, entre filetes de polvo frito, rodadas de tinto e olhares picantes e cúmplices suspensos no calendário de parede, mostrando da loura de lábios cereja, os peitos hirtos, sequiosos e ofegantes. Depois o regresso ao caminho, Santa Luzia acima, realejo a descansar no bolso detrás das calças mal vincadas e duas pingas de água fresca no chafariz de pedra com azulejos encrostados reproduzindo o cabeço de Nossa Senhora da Assumpçao. 
Havia quem ouvisse na vila, de madrugada os primeiros foguetes a anunciarem o início da festa, sobretudo as mulheres a aprontar a merenda que haveria de chegar para o almoço e para o jantar depois da procissão, estendida a toalha no chão de cristal daquele monte sagrado.
Pela manhã as camionetes das duas empresas da vila e da empresa Alfandeguense e da "viúva Carneiro e filhos" da Meda, estacionavam na praça com um dístico de papelão no vidro da frente a informar: SANTUÁRIO, e da rua da igreja, da curva da Emilinha, da rampa da meia laranja, da Santa Luzia, apressadas e nervosas, apareciam famílias inteiras, de cestos e garrafões nos braços ou à cabeça, os mais velhos de bengala a coxear vidas, as crianças de chapéu de palha mercado na última feira dos 28, já a pensar no sol escaldante da tarde daquele dia de todos os calores. As camionetes iam e vinham e paravam apenas à hora da procissão a aguardar o regresso de toda aquela gente rendida à fé, ao milagre de uma existência melhor. A procissão era o momento mais alto da festa. Os andores, majestosos, com pequenos espelhos quadrados e redondos a reluzir, pendurados no cetim de cores diversas, vinham da aldeia lá em baixo com milhares de fiéis a acompanhar, mais duas bandas que espalhavam acordes pelo monte acima, àquela hora já a transbordar de silêncios, de tremores, de sedes. O sol a esconder-se nos confins da terra e dois joelhos em sangue, lá no alto, à volta da capela, uma vela apertada entre as mãos, cumpriam a promessa de uma vida. Pela escadaria, ia subindo e descendo gente vinda de todas as redondezas. De chapéu de palha na cabeça a cobrir-lhe a fronte, uma criança dormia nos braços da mãe sentada na escadaria, encostada à grade que servia de varanda sobre Meireles, Cachão, Mirandela. Mais além o Marão e o Alvão pareciam nebulosas nesta terra do sem fim.
Por fim, a noite. O arraial. Os carrinhos de choque a rolarem na pista "nova corrida, nova viagem", gritava o homem do som. Ao lado, o poço da morte, um cilindro largo com umas escadas até lá acima onde os romeiros se debruçavam, assustados com a perícia do pequeno Joselito e a destreza de seu pai a dominarem uma mota ronceira e atrevida como nenhuma outra. As doceiras estendiam-se pelo monte acima resguardando do pó os económicos e as súplicas e o licor, com uma toalha de linho branca. Lá no alto a capela envolta em luzinhas de várias cores até à torre e à cruz que já há três dias faziam o encanto dos terraços de Carvalho de Egas e Samões ou de quem passasse na estrada para a Trindade ou para Freixiel. 
Havia três coretos no santuário. Dois deles no patamar das grutas, um de cada lado, onde as bandas de Murça e São Mamede desfilavam o seu melhor reportório. Mais acima, depois de um lance de escadas de granito, ficava imponente o coreto verde, coberto, reservado aos "Melros de Cantanhede". Era ali, no largo do coreto verde que a juventude se ia juntando. Os Melros faziam as honras à noite. Não usavam boné nem farda como os músicos das bandas dos coretos debaixo. Camisas pretas e justas abertas pelo peito abaixo, corte de cabelo à francesa, bateria, guitarra eléctrica, acordeon, trompete, os Melros eram o nosso Rock in Rio, o Paredes de Coura das nossas ilusões. "La cumparsita" a tropeçar na calçada à portuguesa do largo, a valsa da meia noite a deslizar tão suavemente como em qualquer salão de Viena, o Rock and Roll a sacudir os nossos sonhos invisíveis. 
Foi numa dessas noites de festa a 15 de Agosto que o Alcino conheceu a Teresa de olhos azuis e cabelo longo corrido. Ele nascido e criado na vila, ela de Ribalonga, uma aldeia a descer para o Douro. Perto da meia noite os Melros e as bandas emudeciam de repente. Ordens de cima, da comissão de festas. Um silêncio estatua em todo o Santuário. Os olhares dirigiam-se agora ao Céu estrelado e luzente. O primeiro morteiro rebentava no ar e do ar caiam depois lágrimas e canas do fogueteiro de Carrazeda. As lágrimas de tanta cor, só vistas assim na festa de Mirandela a cairem no rio, iluminavam a escadaria, as bandeiras de papel, as doceiras de Bragança e da Régua, os últimos instantes da festa.
O Alcino e a Teresa olharam os Melros a interromper o tango e ficaram assim, juntos, de mãos entrelaçadas a olhar cada lágrimas de fogo e sonho a desfazer-se no pinheiral. 
Anos mais tarde, os melões desapareceram da praça, junto ao patim dos Padres, as camionetes não mais pararam à sombra das tílias, dizem-me que poucos chapéus de palha se vendem nas feiras dos 15 e 28. Agora, centenas de carros nesse dia rumam ao cabeço em filas intermináveis. Foi numa dessas filas infindáveis que alguém reparou no Alcino e na Teresa, num citroen azul, matrícula francesa e duas cabecitas de criança a espreitarem nos vidros das portas trazeiras, a caminho da festa, à hora da procissão a cumprirem uma jura de amor feita anos antes ao ouvido, em segredo, ao som do acordeon nostálgico dos Melros "... E depois voltaremos aqui, com os nossos filhos, em dia de festa, ungilos de bênçãos e dizer-lhes que foi aqui que despertou o milagre das suas vidas".

                                                                                (Artur PIMENTEL)